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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

sábado, 1 de março de 2014

Palavra de Vida - março

«Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu, que tenho guardado os mandamentos do meu Pai, também permaneço no seu amor» (Jo 15, 10).


Estas palavras fazem parte do extenso discurso, incluído no quarto Evangelho (cf. Jo 13, 31-17, 26), que Jesus dirigiu aos seus apóstolos depois da última ceia. Vem em evidência que a observância dos seus mandamentos nos faz permanecer no amor. É uma frase que se liga a um versículo anterior, em que Jesus diz aos seus apóstolos: ‹‹Se me amardes, guardareis os meus mandamentos» (Jo l4, 15), de onde se conclui que o amor a Jesus deve ser a motivação, a raiz de onde deve partir a observância dos seus mandamentos.
Por isso, existe uma interdependência entre o amor a Jesus e a observância dos seus mandamentos. O amor a Jesus leva-nos a viver cada vez mais fielmente a sua palavra. E, ao mesmo tempo, a palavra de Jesus vivida faz-nos permanecer e também crescer, cada vez mais, no amor a Ele. 

«Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu, que tenho guardado os mandamentos do meu Pai, também permaneço no seu amor».

Permanecer, pois, no seu amor. Mas o que é que Jesus quer dizer com esta expressão?
Não há dúvida que quer dizer que a observância dos seus mandamentos é o sinal, a prova de que somos seus verdadeiros amigos. É a condição para que também Jesus nos retribua e nos garanta a sua amizade. Mas parece querer dizer também que a observância dos seus mandamentos constrói em nós aquele amor que é característico de Jesus. Comunica-nos aquele modo de amar, que nós vemos em toda a sua vida terrena: um amor que fazia de Jesus uma coisa só com o Pai e, ao mesmo tempo, o impelia a identificar-se e a ser uma coisa só com todos os seus irmãos, especialmente os mais pequenos, os mais fracos, os mais marginalizados.
O amor de Jesus era um amor que curava todas as feridas da alma e do corpo, dava uma paz e uma alegria profunda, vencia toda e qualquer divisão restabelecendo a fraternidade e a unidade entre todos.
Se pusermos em prática a sua palavra, Jesus viverá em nós e fará também de nós instrumentos do seu amor.
«Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu, que tenho guardado os mandamentos do meu Pai, também permaneço no seu amor».

Como viver então a Palavra de Vida deste mês? Recordando e orientando-nos com determinação para o objetivo que ela nos propõe: uma vida cristã que não se limite a uma observância redutiva, fria e exterior dos mandamentos, mas que o faça com generosidade. Os santos agiram assim. E são a Palavra de Deus viva.
Neste mês, escolhamos uma sua Palavra, um seu mandamento, e procuremos traduzi-lo em vida.
Dado que o Mandamento Novo de Jesus (‹‹Amai-vos uns aos outros como eu vos amei›› – cf. Jo 15, 12) é, de certa forma, o centro, a síntese de todas as palavras de Jesus, vivamo-lo com toda a radicalidade.

Chiara Lubich

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Palavra de Vida - fevereiro

«Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5, 8)

Jesus começa a sua pregação com o Sermão da Montanha. Em frente ao lago de Tiberíades, num monte perto de Cafarnaúm, sentado – como costumavam fazer os mestres –, Jesus anuncia às multidões o homem das bem-aventuranças. No Antigo Testamento usava-se muitas vezes a palavra «bem-aventurado», exaltando a pessoa que cumpria, das mais variadas formas, a Palavra do Senhor.
Nas bem-aventuranças de Jesus encontrava-se, em parte, um eco das bem-aventuranças que os discípulos já conheciam. No entanto, era a primeira vez que eles ouviam dizer que os puros de coração – como cantava o Salmo – eram, não só dignos de subir ao monte do Senhor (cf. Sl 24, 4), mas até de poder ver Deus. Qual era, então, essa pureza tão sublime que tinha tanto mérito? Jesus haveria de explicá-lo repetidas vezes durante a sua pregação. Procuremos, por isso, segui-lo, para nos abeirarmos da fonte da verdadeira pureza.
«Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus».
 
Antes de mais nada, para Jesus, há um meio supremo de purificação: «Vós já estais purificados pela Palavra que vos tenho anunciado» (Jo 15, 3). Não são tanto os exercícios rituais que purificam o espírito, mas a sua Palavra. A Palavra de Jesus é diferente das palavras humanas. Nela está presente Cristo, como também – de outro modo – está presente na Eucaristia. Por meio da Palavra, Cristo entra em nós e, se a deixarmos agir, torna-nos livres do pecado e, portanto, puros de coração.
Por conseguinte, a pureza é o resultado da Palavra vivida, fruto de todas aquelas Palavras de Jesus que nos libertam dos chamados “apegos” em que forçosamente caímos se não tivermos o coração fixado em Deus e nos seus ensinamentos. Esses apegos podem ser em relação às coisas, às criaturas, ou a nós mesmos. Mas, se o coração estiver fixado unicamente em Deus, tudo o resto deixa de nos atrair.
Para ter êxito nesta tarefa, pode ser útil repetir a Jesus, a Deus, durante o dia, aquela invocação do Salmo que diz: «És tu, Senhor, o meu único bem!» (cf. Sl 16, 2). Procuremos repeti-lo frequentemente e, sobretudo, quando os vários apegos ameaçarem arrastar o nosso coração para imagens, sentimentos e paixões que possam ofuscar a ideia do bem e tirar-nos a liberdade.
Somos levados a olhar para certos cartazes publicitários, a assistir a certos programas de televisão? Digamos-Lhe: «És tu, Senhor, o meu único bem». Será este o primeiro passo que nos fará sair de nós mesmos, declarando de novo a Deus o nosso amor. E assim vamos adquirindo a pureza.
Sentimos, por vezes, que uma pessoa ou uma atividade se interpõem, como um obstáculo, entre nós e Deus e turvam a nossa relação com Ele? É o momento de Lhe repetir: «És tu, Senhor, o meu único bem». Isto ajudar-nos-á a purificar as nossas intenções e a reencontrar a liberdade interior.
«Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus».
 
A Palavra vivida torna-nos livres e puros porque é amor. É o amor que purifica, com o seu fogo divino, as nossas intenções e todo o nosso espírito, pois, segundo a Bíblia, o «coração» é a morada mais profunda da inteligência e da vontade.
Mas existe um amor que Jesus nos recomenda e que nos permite viver esta bem-aventurança. É o amor recíproco, de quem está pronto a dar a vida pelos outros, seguindo o exemplo de Jesus. Esse amor cria uma corrente, cria uma reciprocidade, uma atmosfera, cuja nota dominante é precisamente a transparência, a pureza, devido à presença de Deus que é o único que pode criar em nós um coração puro (cf. Sl 51, 12). É vivendo o amor recíproco que a Palavra actua com os seus efeitos de purificação e de santificação.
O indivíduo isolado é incapaz de resistir muito tempo às solicitações do mundo. Pelo contrário, no amor recíproco, encontra um ambiente são, capaz de proteger a sua pureza e toda a sua existência cristã autêntica.
«Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus».
 
E eis, então, o fruto desta pureza, sempre reconquistada: pode-se «ver» Deus, isto é, compreender a sua ação na nossa vida e na História; ouvir a sua voz no coração; descobrir a sua presença onde ela se encontra: nos pobres, na Eucaristia, na sua Palavra, na comunhão fraterna, na Igreja.
É um saborear antecipadamente a presença de Deus, que começa já nesta vida, «pois caminhamos pela fé e não pela visão» (2 Cor 5, 7) até ao momento em que O «veremos face a face» (1 Cor 13, 12) por toda a eternidade. 

Chiara Lubich

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Palavra de Vida - janeiro

«Cristo, único fundamento da Igreja» (cf. 1 Cor 3, 11)
janeiro de 2014 (1)

Do dia 18 ao dia 25 de janeiro, celebra-se, em muitas nações do mundo, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. No entanto, há locais em que esta intenção é recordada no Pentecostes.
A frase escolhida para a Semana de Oração deste ano é: «Estará Cristo dividido?» (1 Cor 1, 13).
Chiara Lubich, geralmente, comentava o versículo bíblico proposto. Para manter este seu contributo, propomos um texto onde ela comenta o versículo: «Cristo, único fundamento da Igreja» (cf. 1 Cor 3, 11), escrito em janeiro de 2005, que poderá servir como aprofundamento da frase proposta este ano.                
                                                     
«Cristo, único fundamento da Igreja» (cf. 1 Cor 3, 11) (2).

Estava-se no ano 50 d. C. quando S. Paulo chegou a Corinto. Esta grande cidade da Grécia era famosa pelo importante porto comercial e tinha uma grande vivacidade devido às suas numerosas correntes de pensamento. Foi aí que, durante 18 meses, o Apóstolo anunciou o Evangelho e lançou as bases de uma florescente comunidade cristã. Depois dele, outros continuaram a obra de evangelização. Mas os novos cristãos tinham a tendência de se apegarem às pessoas que lhes levavam a mensagem de Cristo, e não ao próprio Cristo. Surgiam assim as fações: «Eu sou de Paulo», diziam alguns; e outros, sempre referindo-se ao seu apóstolo preferido: «Eu sou de Apolo», ou: «Eu sou de Pedro».
Perante a divisão que perturbava a comunidade, S. Paulo afirma com força que os construtores da Igreja – que ele comparava a um edifício ou a um templo – podem ser muitos, mas o alicerce é só um, a pedra viva: Cristo Jesus.
Sobretudo neste mês, durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, as Igrejas e as comunidades eclesiais recordam juntas que Cristo é o seu único fundamento, e que só aderindo a Ele e vivendo o único Evangelho de Cristo podem encontrar a total e visível unidade entre elas.

«Cristo, único fundamento da Igreja».
 
Fundar a nossa vida em Cristo significa ser uma só coisa com Ele, pensar como Ele pensa, querer aquilo que Ele quer, viver como Ele viveu.
Mas como nos podemos fundar, alicerçar n’Ele? Como nos podemos tornar uma só coisa com Ele?
Pondo em prática o Evangelho.
Jesus é o Verbo, ou seja, a Palavra de Deus que se encarnou. E, se Ele é a Palavra que assumiu a natureza humana, nós só seremos verdadeiros cristãos se formos homens e mulheres que impregnam toda a sua vida com a Palavra de Deus.
Se nós vivermos as suas palavras, ou melhor, se as suas palavras viverem em nós, de maneira a tornarmo-nos “Palavras vivas”, seremos um com Ele, estaremos mais próximos d’Ele. Já não viverá o eu ou o nós, mas a Palavra em todos. Verificaremos que, vivendo assim, podemos dar um contributo para que a unidade entre todos os cristãos se torne uma realidade.
Tal como o corpo respira para viver, do mesmo modo a alma, para viver, vive a Palavra de Deus.
Um dos primeiros frutos é o nascimento de Jesus em nós e entre nós. Isto provoca uma mudança de mentalidade: injeta no coração de todos – sejam eles europeus ou asiáticos, australianos, americanos ou africanos – os mesmos sentimentos de Cristo diante das circunstâncias, das pessoas, da sociedade. (…)
A Palavra vivida torna-nos livres dos condicionamentos humanos, infunde alegria, paz, simplicidade, plenitude de vida, luz. Fazendo-nos aderir a Cristo, transforma-nos, pouco a pouco, em outros Ele.

«Cristo, único fundamento da Igreja».
 
Mas há uma Palavra que resume todas as outras, é amar: amar a Deus e ao próximo. Jesus sintetiza nesta palavra «toda a Lei e os Profetas» (cf. Mt 22,40).
O facto é que, cada Palavra, embora sendo expressa em termos humanos e diferentes, é Palavra de Deus. Mas, como Deus é Amor, cada Palavra é caridade.
Como viver então este mês? Como nos ligarmos estreitamente a Cristo, «único fundamento da Igreja»? Amando como Ele nos ensinou.
«Ama e faz o que quiseres» (3), disse Santo Agostinho, como que sintetizando a norma de vida evangélica. Porque, quando amamos não erramos, mas realizamos plenamente a vontade de Deus.

Chiara Lubich
 
1) Publicada em Cidade Nova, 2005/01, p. 20, em versão integral; 2) 1 Cor 3, 11: «Ninguém pode pôr um fundamento diferente do que já foi posto: Jesus Cristo»; 3) em Comentário da Primeira Epístola de S. João, Tratado VII, 8, p. 151 (Ed. Paulinas, S. Paulo, Brasil, 1989).

domingo, 1 de dezembro de 2013

Palavra de Vida - dezembro

«O Senhor vos faça crescer e superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos» (1 Ts 3, 12). 

dezembro de 2013 (1) 
 
Esta é uma daquelas expressões, familiares a S. Paulo, em que ele deseja, e ao mesmo tempo pede ao Senhor, graças especiais para as suas comunidades (cf. Ef 3, 18; Fil 1, 9, etc.).
Para os Tessalonicenses pede, desta vez, a graça de um amor recíproco cada vez maior, superabundante. Não se trata de uma repreensão velada, como se não existisse o amor recíproco naquela comunidade, mas sim de um alerta para uma exigência inerente ao próprio amor: o seu crescimento constante. 

«O Senhor vos faça crescer e superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos».
 
Se o amor, que é o centro da vida cristã, não progredir, toda a vida do cristão se ressente, enfraquece e pode vir a apagar-se.
Não basta termos compreendido, num momento de luz, o mandamento do amor ao próximo. Nem termos experimentado, cheios de entusiasmo, os seus impulsos e o seu ardor no período inicial da nossa conversão ao Evangelho. É necessário fazê-lo crescer mantendo-o sempre vivo, ativo e operante. Isto só vai acontecer se soubermos aproveitar, com prontidão e generosidade cada vez maiores, as várias oportunidades que a vida nos oferece em cada dia. 

«O Senhor vos faça crescer e superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos».
 
Para S. Paulo, as comunidades cristãs deveriam ter a frescura e a vivacidade de uma verdadeira família.
Compreende-se, portanto, a intenção do apóstolo de as alertar contra os perigos que mais frequentemente as ameaçam: o individualismo, a superficialidade, a mediocridade.
Mas S. Paulo quer avisá-las também de outro grave perigo, estreitamente ligado ao precedente: o de se instalarem numa vida ordenada e tranquila, mas fechada em si mesma.
Ele deseja comunidades abertas, já que é próprio da caridade amar os irmãos que têm a mesma fé que nós e, por outro lado, ir ao encontro de todos, ser sensíveis aos problemas e às necessidades de todos. É próprio da caridade saber acolher qualquer pessoa, construir pontes, reconhecendo o positivo e unindo as nossas aspirações e esforços, para realizar o bem, aos de todos os que demonstrarem boa vontade. 

«O Senhor vos faça crescer e superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos».
 
Como viveremos então a Palavra de Vida deste mês? Procurando crescer também nós no amor recíproco dentro das nossas famílias, do nosso ambiente de trabalho, das nossas comunidades ou associações eclesiais, paróquias, etc.
Esta Palavra requer de nós uma caridade superabundante, isto é, uma caridade que saiba ultrapassar as medidas medíocres e as várias barreiras provenientes do nosso egoísmo subtil. Será suficiente pensar em certos aspetos da caridade (tolerância, compreensão, acolhimento recíproco, paciência, disponibilidade para servir, misericórdia para com as verdadeiras ou para com as presumíveis faltas do nosso próximo, partilha dos bens materiais, etc.) para descobrirmos muitas oportunidades para viver.
Além disso, é evidente que, se houver na nossa comunidade este clima de amor recíproco, o seu calor propagar-se-á inevitavelmente a todos. E até aqueles que ainda não conhecem a vida cristã irão sentir a sua atração e, quase sem disso se aperceberem, serão facilmente envolvidos por ela até se sentirem parte de uma mesma família.

Chiara Lubich

1) Palavra de Vida publicada em Città Nuova, 1994/20, pp. 32-33.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Palavra de Vida - novembro

«Sede bondosos uns para com os outros, compassivos; perdoai-vos mutuamente, como também Deus vos perdoou em Cristo›› (Ef 4, 32). (1)


Este programa de vida é concreto e essencial. E já bastaria para criar uma sociedade diferente, mais fraterna, mais solidária. Esta frase está incluída
num amplo projeto proposto aos cristãos da Ásia Menor.
Naquelas comunidades tinha-se conseguido estabelecer a “paz” entre Judeus e Gentios, que eram os dois povos representantes da humanidade, até então divididos.
A unidade, que Cristo nos deu, deve ser sempre reavivada e traduzida em comportamentos sociais concretos, inteiramente inspirados pelo amor recíproco. Por isso São Paulo dá as indicações sobre como devem ser os relacionamentos: 

«Sede bondosos uns para com os outros, compassivos; perdoai-vos mutuamente, como também Deus vos perdoou em Cristo››.
 
Bondade: querer o bem do outro. É “fazer-se um” com cada próximo, aproximarmo-nos dele completamente vazios de nós mesmos – vazios dos nossos interesses, das nossas ideias, dos muitos preconceitos que nos ofuscam o olhar – para nos revestirmos dos seus pesos, das suas necessidades, dos seus sofrimentos, para partilhar as suas alegrias.
É entrar no coração daqueles com quem contactamos para compreender a sua mentalidade, a sua cultura, as suas tradições e fazê-las, de certo modo, nossas. E compreender realmente aquilo de que necessitam para saber captar os valores que Deus depositou no coração de cada pessoa. Numa palavra: viver para quem está ao nosso lado.
Misericórdia: aceitar o outro tal como é, e não como gostaríamos que fosse. Gostaríamos que tivesse um caráter diferente, tivesse as mesmas ideias políticas que nós, as nossas convicções religiosas, e não tivesse aqueles defeitos ou aqueles modos de proceder que tanto nos chocam. Não! Temos que dilatar o nosso coração e torná-lo capaz de aceitar todos, com as suas divergências, os seus limites e misérias.
Perdão: ver o outro sempre de um modo novo. Até nas convivências mais bonitas e serenas, na família, na escola, no trabalho, não faltam momentos de atrito, divergências, desentendimentos. Há quem chegue até a deixar de se falar, a evitar encontrar-se, isto para não falar de quando se enraíza no coração um verdadeiro ódio para com os que pensam de maneira diferente. É preciso um esforço forte e exigente para procurar ver, todos os dias, o irmão e a irmã como se fossem novos, completamente novos, sem nos lembrarmos das ofensas recebidas, mas cobrindo tudo com o amor, com uma amnistia completa do nosso coração, à imitação de Deus que perdoa e esquece.
A paz verdadeira e a unidade só se conseguem quando a bondade, a misericórdia e o perdão forem vividos, não só por cada um individualmente, mas juntos, na reciprocidade.
E, tal como numa lareira acesa, é preciso remexer as brasas, de vez em quando, para não serem cobertas pelas cinzas, também é necessário, de tempos a tempos, reavivar conscientemente o amor recíproco, reavivar os relacionamentos com todos, para que não sejam cobertos pela cinza da indiferença, da apatia, do egoísmo. 

«Sede bondosos uns para com os outros, compassivos; e perdoai-vos mutuamente, como também Deus vos perdoou em Cristo››.
 
Estas atitudes têm de se traduzir em factos, em ações concretas.
O próprio Jesus mostrou o que é o amor quando curou os doentes, quando saciou a fome às multidões, quando ressuscitou os mortos, quando lavou os pés aos discípulos. Factos, factos: é assim que se ama.
Recordo-me de uma mãe de família africana: sofreu muito porque a sua filha, a Rosangela, perdeu a visão de um dos lados, vítima de um rapazito agressivo que a tinha ferido com uma cana e continuava a zombar dela. Os pais do rapaz não foram pedir desculpa. O silêncio, a falta de relacionamento com aquela família amarguravam-na. «Consola-te – dizia a Rosangela, que lhes tinha perdoado –, tenho sorte, pois posso ver com a outra vista!››.
«Uma manhã – conta a mãe da Rosangela –, a mãe daquele rapazinho mandou-me chamar porque se sentia mal. A minha primeira reação foi: “Olha, agora vem-me pedir ajuda a mim, com tantos outros vizinhos de casa, vem-me pedir a mim, depois daquilo que o seu filho nos fez!”.
Mas imediatamente me lembrei que o amor não tem barreiras. Fui a correr à sua casa. Ela abriu-me a porta e desfaleceu-me nos braços. Acompanhei-a ao hospital e fiquei com ela até os médicos tratarem dela. Passada uma semana, quando saiu do hospital, ela veio a minha casa para me agradecer. Recebi-a com todo o coração. Consegui perdoar-lhe. Agora voltámos a falar-nos, ou melhor, nasceu um relacionamento completamente novo››.
Também o nosso dia se pode encher de serviços concretos, humildes e inteligentes, expressões do nosso amor. Veremos crescer a fraternidade e a paz à nossa volta.

Chiara Lubich

1) Palavra de Vida publicada em Città Nuova, 2006/14, p. 9.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Palavra de Vida - outubro

«Não fiqueis a dever nada a ninguém, a não ser isto: amar-vos uns aos outros. Pois quem ama o próximo cumpre plenamente a lei» (Rm 13, 8). (1)

Nos versículos precedentes (Rm 13, 1-7) São Paulo tinha falado da dívida que nós temos para com a autoridade civil (obediência, respeito, pagamento das taxas, etc.), sublinhando que também o pagamento dessa dívida deve ser motivado pelo amor. Seja como for, trata-se de uma dívida facilmente compreensível, também porque, caso não a pagássemos, mereceríamos as sanções previstas pela lei.
Partindo dali, agora passa a falar de uma outra dívida, um pouco mais difícil de compreender: é aquela que – segundo o preceito que Jesus nos deixou – nós temos para com cada próximo. É o amor recíproco nas suas várias expressões: generosidade, delicadeza, confiança, estima recíproca, sinceridade, etc. (cf. Rm 12, 9-12).

«Não fiqueis a dever nada a ninguém, a não ser isto: amar-vos uns aos outros. Pois quem ama o próximo cumpre plenamente a lei».
 
Esta Palavra de Vida destaca duas coisas.
A primeira é que o amor nos é apresentado como uma dívida, ou seja, como algo perante o qual não podemos permanecer indiferentes, não podemos adiar. É qualquer coisa que nos obriga, nos persegue, não nos deixa descansados enquanto não a tivermos pago.
É como dizer que o amor recíproco não é um “mais”, resultante da nossa generosidade, do qual – segundo o significado rigoroso do termo – nos poderíamos eximir sem incorrermos nas sanções da lei positiva. Esta Palavra pede-nos insistentemente que o ponhamos em prática sob pena de trairmos a nossa dignidade de cristãos, chamados por Jesus a ser instrumentos do seu amor no mundo.
A segunda, é dizer que o amor recíproco é o motor, a alma e a finalidade de todos os mandamentos.
A consequência é que, se queremos fazer bem a vontade de Deus, não nos podemos contentar com uma observância fria e jurídica dos seus mandamentos. Temos mesmo que ter sempre presente esta finalidade, que Deus nos propõe. Assim, por exemplo, para viver bem o sétimo mandamento, não nos poderemos limitar a não roubar, mas devemos empenhar-nos seriamente em eliminar as injustiças sociais. Só assim é que podemos demonstrar que amamos o nosso semelhante. 

«Não fiqueis a dever nada a ninguém, a não ser isto: amar-vos uns aos outros. Pois quem ama o próximo cumpre plenamente a lei».
 
Como viver, então, a Palavra deste mês?
O tema do amor ao próximo, que ela nos volta a propor, contém infinitas tonalidades. Aqui recordaremos sobretudo uma, que nos parece mesmo sugerida pelas palavras do texto.
Se, como diz São Paulo, o amor recíproco é uma dívida, será necessário possuirmos um amor que nos faça ser os primeiros a amar, como fez Jesus conosco. Será, portanto, um amor que toma a iniciativa, que não espera, que não adia.
Façamos, então, assim neste mês. Procuremos ser os primeiros a amar cada pessoa que encontrarmos, à qual telefonarmos, escrevermos, ou com a qual vivemos. E que o nosso amor seja um amor concreto, que sabe compreender, prevenir, que é paciente, confiante, perseverante, generoso.
Verificaremos que a nossa vida espiritual vai dar um salto de qualidade, sem falar na alegria que encherá o nosso coração.

Chiara Lubich

1) Palavra de Vida publicada em Città Nuova 1990/15/16, p. 9.
2 Cf. Lv 19, 18.


domingo, 1 de setembro de 2013

Palavra de Vida - setembro

«Não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade» (1 Jo 3, 18). (1) 

 É São João quem escreve. Ele alerta as suas comunidades contra certas pessoas que, quando falam, exaltavam a fé em Jesus, mas essa fé não era acompanhada por obras. Aliás, estas últimas eram consideradas inúteis ou supérfluas, como se Jesus já tivesse feito tudo. Assim, a fé delas era vazia e estéril, porque não dava à ação de Jesus o contributo indispensável que Ele pede a cada um de nós.
 
«Não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade».
 
Amar com obras. A verdadeira fé – diz o apóstolo – é a que dá provas de si mesma, amando como Jesus amou e nos ensinou a amar. Ora, a primeira caraterística deste amor é que é concreto. Jesus não nos amou com lindos discursos, mas esteve entre nós a fazer o bem, curando todos, estando totalmente disponível para com os que encontrava, a começar pelos mais fracos, os mais pobres e marginalizados, e dando a sua vida por nós. 

«Não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade».
 
Depois – diz o apóstolo –, além de amar com obras, devemos amar também com verdade. O amor cristão, ao mesmo tempo que procura traduzir-se em obras concretas, preocupa-se em inspirar-se na verdade do amor que encontramos em Jesus. Preocupa-se em fazer obras em conformidade com os sentimentos e os ensinamentos de Jesus. Isto é, devemos amar seguindo a linha e usando a medida que Jesus nos mostrou. 

«Não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade».
 
Como viver, então, a Palavra de Vida deste mês? A sua mensagem é até clara demais. É um apelo para aquela autenticidade cristã, em que Jesus tanto insistiu. Mas não é esta também a grande esperança do mundo? Não é verdade que o mundo de hoje anseia por ver pessoas que testemunhem o amor de Jesus?
Amemos, então, com as obras e não com as palavras, começando pelos serviços humildes que nos são pedidos, em cada dia, pelos próximos que estão ao nosso lado.
E amemos com verdade. Jesus agia sempre de acordo com a vontade do Pai. Da mesma maneira, também nós devemos agir sempre seguindo a Palavra de Jesus. Ele quer que vejamos a sua presença em cada próximo. De facto, tudo o que fazemos a cada pessoa, ele considera-o feito a si. E mais, ele quer que amemos os outros como a nós mesmos, e que nos amemos reciprocamente, estando prontos a dar a vida uns pelos outros.
Amemos assim, para sermos, também nós, instrumentos de Jesus para a salvação do mundo.

Chiara Lubich

1) Palavra de Vida publicada em Città Nuova, 1988/8, p. 11.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Palavra de Vida - agosto

«Se amais os que vos amam, que agradecimento mereceis? Os pecadores também amam aqueles que os amam» (Lc 6, 32)

agosto de 2013 (1)

A Palavra de Vida deste mês é do Evangelho de São Lucas. Faz parte de uma ampla sucessão de frases de Jesus que, no Evangelho de São Mateus, correspondem ao Sermão da Montanha. Como se sabe, neste trecho do Evangelho, Jesus descreve as exigências do Reino de Deus e as linhas que caraterizam aqueles que dele fazem parte. Estes inspiram-se e orientam-se na imitação do Pai Celeste.
Neste versículo, Jesus chama os seus discípulos a imitar Deus-Pai no amor. Se queremos ser Seus filhos, temos que amar o nosso próximo do mesmo modo que Ele ama. 

«Se amais os que vos amam, que agradecimento mereceis? Os pecadores também amam aqueles que os amam».
 
A primeira caraterística que melhor distingue o amor de Deus-Pai é a sua absoluta gratuidade. Está diametralmente em oposição ao amor do mundo. Enquanto o amor do mundo se baseia na retribuição e na simpatia (isto é, em amar aqueles que nos amam ou que nos são simpáticos), o amor do Pai Celeste é completamente desinteressado: doa-se às suas criaturas, independentemente da resposta que possa receber. É um amor que, por sua natureza, toma a iniciativa, comunicando tudo o que possui. Por conseguinte, é um amor que constrói e que transforma. O Pai do Céu ama-nos não decerto porque somos bons, espiritualmente bonitos e, por isso, dignos de atenção e de benevolência. Mas, pelo contrário, ao amar-nos cria em nós a bondade e a beleza espiritual da graça, fazendo com que nos tornemos Seus amigos e filhos. 

«Se amais os que vos amam, que agradecimento mereceis? Os pecadores também amam aqueles que os amam».
 
Uma outra caraterística do amor de Deus-Pai é a universalidade. Deus ama todos indistintamente. A Sua medida é a ausência de qualquer limite e de qualquer medida.
Aliás, o Seu amor não poderia ser gratuito e criativo se não fosse totalmente dirigido para onde quer que haja uma qualquer necessidade ou um vazio a preencher.
Eis por que o Pai do Céu ama também aqueles filhos que são ingratos, ou afastados, ou rebeldes. Pelo contrário, sente-se até atraído para eles de um modo muito especial. 

«Se amais os que vos amam, que agradecimento mereceis? Os pecadores também amam aqueles que os amam».
 
Como podemos viver, então, a Palavra de Vida deste mês?
Comportando-nos como verdadeiros filhos do Pai do Céu, isto é, imitando o Seu amor, sobretudo nas caraterísticas que evidenciámos: a gratuidade e a universalidade. Procuraremos, então, ser os primeiros a amar, com um amor generoso, solidário, aberto a todos, com uma dedicação especial aos vazios que possamos encontrar ao nosso redor. Procuraremos amar com um amor desapegado dos resultados. Temos que nos esforçar por ser instrumentos da liberalidade de Deus, fazendo participar também os outros das graças naturais e espirituais que d’Ele recebemos.
Deixando-nos guiar por esta Palavra de Jesus, veremos com olhos novos e com um coração novo todos os próximos que passarem por nós, todas as oportunidades que a vida quotidiana nos oferecer. E seja qual for o lugar onde nos encontrarmos a agir (em casa, na escola, no ambiente de trabalho, no hospital, etc.), sentir-nos-emos impelidos a ser distribuidores deste amor que é específico de Deus e que Jesus trouxe à Terra, o único capaz de transformar o mundo. 

Chiara Lubich

1) Palavra de Vida publicada em Città Nuova, 1992/2, pp. 32-33.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Palavra de Vida - julho

«Toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: “Ama o teu próximo como a ti mesmo”» (Gl 5, 14) (2)
julho de 2013 (1)

É uma palavra de Paulo, o Apóstolo: concisa, extraordinária, lapidar, clarificadora.
Revela-nos o que deve estar na base do comportamento cristão, aquilo que o deve inspirar sempre: o amor ao próximo.
O apóstolo vê na atuação deste mandamento o pleno cumprimento da Lei. De facto, ela diz para não cometer adultério, não matar, não roubar, não desejar... E sabe-se que, quem ama, não faz nada disto: quem ama não mata, não rouba...

«Toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: “Ama o teu próximo como a ti mesmo”».
 
Mas quem ama não evita unicamente o mal. Quem ama abre-se aos outros, quer o bem, realiza-o, doa-se: chega a dar a vida por aquele que ama.
Por isso, Paulo escreve que, no amor ao próximo, não só se observa a Lei, mas tem-se a “plenitude” da Lei. 

«Toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: “Ama o teu próximo como a ti mesmo”».
 
Se toda a Lei está no amor ao próximo, é preciso ver os outros mandamentos como meios que nos iluminam e nos guiam para sabermos encontrar, nas intrincadas situações da vida, o caminho para amar os outros. É preciso saber ler nos outros mandamentos a intenção de Deus, a sua vontade.
Ele quer que sejamos obedientes, puros, mortificados, mansos, misericordiosos, pobres... para melhor realizarmos o mandamento da caridade. 

«Toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: “Ama o teu próximo como a ti mesmo”».
 
Poderíamos interrogar-nos: como pode o Apóstolo abster-se de falar do amor a Deus?
O facto é que o amor a Deus e ao próximo não estão em concorrência. Um deles — o amor ao próximo — é, aliás, expressão do outro, do amor a Deus. Na verdade, amar a Deus significa fazer a sua vontade. E a sua vontade é que amemos o próximo. 

«Toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: “Ama o teu próximo como a ti mesmo”».
 
Como pôr em prática esta Palavra?
É claro: amando o próximo. Amando-o verdadeiramente.
Isto significa: doação, mas doação desinteressada, a ele.
Não ama, quem instrumentaliza o próximo para os seus próprios fins, até para os mais espirituais, como poderia ser a sua santificação. É preciso amar o próximo, e não a nós mesmos.
Não há dúvida, contudo, que quem ama assim far-se-á realmente santo. Será “perfeito como o Pai”, porque cumpriu o que de melhor podia fazer: centrou a vontade de Deus, pô-la em prática. Cumpriu plenamente a Lei.
Não é verdade que vamos ser examinados, no fim da vida, unicamente sobre este amor? 

Chiara Lubich

1) Palavra de Vida publicada em Città Nuova, 1983/10, p. 40.
2) Cf. Lv 19, 18.